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Cajuzinho do Cerrado

Cajuzinho do Cerrado, o presente que a seca nos dá

Viver das coisas que a natureza nos dá. Parece até uma filosofia simplista ou quase impossível de praticar, mas será mesmo? Ou talvez tenhamos perdido essa conexão? A natureza tem seus movimentos, seu tempo e seus frutos, e o Cajuzinho do Cerrado está aqui para provar isso.

Ele gosta de sol, seca e de crescer isolado. Independente, não aceita compartilhar o solo com todas as árvores, e quando vai dar os frutos? Isso só ele vai dizer, com a calma e tranquilidade que só a natureza tem e precisa. Todos esses detalhes a Dona Ana observou e aprendeu nesses mais de 10 anos de colheita do Cajuzinho do Cerrado.

“Esse é um caju mais selvagem, que gosta de nascer sozinho. O ideal é plantar onde já existem algumas árvores que cresceram espontaneamente para ter a certeza que vai dar certo. Aqui a gente já notou que o cajuzinho combina com a cagaita e pimenta de macaco, mas não se dá com pequi e jatobá”, explica Dona Ana.

O caju do mato ou cajuí, como também é chamado de acordo com a região, é a estrela da seca. Plantado no período chuvoso, as frutas só surgem no auge da estiagem, e não adianta procurá-lo em outra época. “Nós iniciamos a plantação entre novembro e dezembro, normalmente após três chuvas, e a colheita acontece entre agosto e setembro ou até outubro, depende do ritmo da chuva. Quando passa esses meses, não se vê mais nem sinal de cajuzinho até a próxima safra”, alerta Ana.

As árvores variam de tamanho, e os frutos, normalmente, possuem entre 2 e 4 cm de comprimento. Seu sabor é, ao mesmo tempo, ácido e adocicado, e é bastante suculento.

Se por um lado o cajuzinho é tão dependente do clima e só aparece por 30 dias no ano, de outro, quando ele vem, ele vem com tudo. “Os animais gostam muito dessa fruta e acabam sendo os principais responsáveis por espalhar os pés de caju por todo o Cerrado. Nós temos nosso local de plantação, mas nascem muitas árvores fora e elas ficam carregadas de caju”, comenta.

Por isso mesmo, o Cajuzinho do Cerrado é aproveitado ao máximo na nossa gastronomia. Dona Ana mesmo cria e recria inúmeros produtos derivados do fruto. “A gente usa aqui os mais maduros para fazer polpa e doces, mas também começamos a fazer licor, cachaça e até kombucha para evitar o desperdício. Fora isso, nós vendemos pra muitos restaurantes que usam em vários pratos, doces e até salgados!”

Mas é possível congelar os frutos. O sabor? Para comer a fruta pura não é a mesma coisa, gosto e textura são alterados, mas para usar em receitas, isso sim dá pra fazer o ano todo.

 

O cajuzinho também virou tema de pesquisa

Embora o cajuzinho surja espontaneamente em diversas áreas do Cerrado, o fruto ainda é pouco valorizado por produtores, consumidores e também pesquisadores, um dos motivos que levou Aline Monteiro a eleger o cajuzinho como tema de sua dissertação de mestrado em agronegócios.

“Eu já gostava muito da fruta e quando chegou o momento de definir o tema da minha pesquisa, eu percebi que existiam pouquíssimos trabalhos sobre ele e o que tinha eram pesquisas sobre o uso medicinal da folha. Então decidi seguir por esse caminho”, conta.

Com o título “Valorização do cajuzinho-do-cerrado: memória involuntária e memória gustativa”, Aline, que também é formada em gastronomia, buscou entender se e como agroextrativistas e consumidores valorizam esta fruta tão presente na região, unindo o agronegócio, a gastronomia e a antropologia.

“Da parte dos agroextrativistas, apenas a Dona Ana tem uma memória com o cajuzinho, o restante, que é a maior parte, são de assentamento e começaram a manipular a fruta há cerca de 20 anos, então não existe uma memória. E a maioria deles é só para comercializar como renda extra, eles não têm vínculo nenhum e muitos nem comem!”

Em suas entrevistas, Aline percebeu que o papel do cajuzinho, e também de outras frutas do Cerrado, é de resgate de prática, saberes e da cultura de um povo, onde produto e produtor são valorizados e cada vez mais conhecidos pelos consumidores.

“Tem os que cresceram na roça ou campo, que conhecem desde criança, e os que começaram a conhecer agora. Normalmente, essas são pessoas de fora de Brasília que veem a fruta em trilhas e roteiros turísticos a caminho de cachoeiras.”

A gastronomia é um dos caminhos para incentivar o consumo em diversas formas dos produtos da região e é um movimento que vem se iniciando e ganhando força através de chefs e restaurantes. Aline acredita que é possível tornar o cajuzinho tão conhecido como o pequi e que já estamos formando a gastronomia brasiliense.

“Antigamente acontecia muitas misturas de cultura e paladares diferentes, mas já temos muitos brasilienses nascidos aqui e estamos começando a ter um ‘cara’. Estamos criando nossa identidade cultural, turística e, em breve, vamos ter também o roteiro gastronômico”, finaliza.

 

Ficha técnica

Nomenclaturas: Cajuzinho do Cerrado, Caju do Mato, Cajuí

Nome técnico: Família anacardiácea

Aspectos físicos: Tamanho menor que o caju tradicional, casca nas cores vermelho, amarelo e roxo

Origem e produção: apenas no Cerrado

Época: Entre agosto e setembro

Onde comprar: Ceasa, Mercearia Colaborativa, Mercadinho do Brasília Shopping

Valor médio: De R$ 10 a R$ 20 o quilo

 

 

 

Remodal

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